"A Responsabilidade de ter olhos quando todos os outros já os perderam."
Vou falar um pouquinho sobre o que eu achei do livro: Muito Bom! [rs]
Indico sem medo! Principalmente porque estamos vivendo um momento literário que não vem mostrando grandes inovações. Que existem ótimos escritores é inquestionável, entretanto tem sido difícil encontrar quem faça uma literatura ficcional tão crítica e irônica como Saramago fez.
Pessoalmente, eu vi na cegueira coletiva uma metáfora sobre a capacidade humana de enxergar o que se passa a sua volta; de enxergar o mundo, a sociedade, o sofrimento de seus iguais! E igualmente vi sobre a capacidade de uns poucos de realmente verem o que está acontecendo e, portanto, a responsabilidade deles com o restante da sociedade!
Dentro desse contexto, Saramago faz ainda crítica a diversos setores da sociedade; os governantes, o exército, a igreja, e os próprios civis. Sempre através de uma irônica fina e sutil, como há muito eu não via.
Não acho que a história perderia totalmente o sentido se não fosse vista dessa forma. Provavelmente a dificuldade de, literalmente, não enxergar deve ainda assim possuir uma forte reflexão sobre a dependência que toda a sociedade tem de seus olhos! Eu realmente não vi,em momento algum dessa forma, por isso não posso falar nada sob esse ponto de vista!
Aos que não gostam de saber as histórias antes de as terem lido, e se você ainda não leu, pare aqui! Agora pretendo comentar fatos ocorridos durante a trama, para abrir debate!
A Mulher do Médico: Ela é sem dúvida a personagem mais importante da trama; não pelo numero de vezes que aparece ou deixa de aparecer, mas pela reflexão que ela permite ao leitor! É justamente o fato dela ainda poder enxergar o mundo a sua volta e se questionar sobre o que vê, que dá ao leitor a oportunidade de questionar a si mesmo sobre o que ele enxerga e sobre o que ele prefere se negar a ver dentro da sociedade em que vive!
A situação dela é muito importante pois, diferente dos que ainda não estão no manicômio, ela está presenciando tudo o que está acontecendo com esses cegos. E, embora ela esteja vivendo tudo o que esses cegos vivem, para ela tudo se passa de forma diferente. O fato de não ter ficado cega simboliza o fato de ela sempre ter sido capaz de ver mais a frente (como no momento em que soube que o marido seria levado, e rapidamente decidiu e fez o necessário para ir junto com ele).
Ela pode ver tudo o que eles sofrem e algo a mais, algo que nem ela própria compreende totalmente. Mas ainda assim ela sente a dor dos outros e se sente responsável pelos que não podem enxergar os próprios problemas. “O medo cega(...), já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos fez cegou, o medo no fará continuar cegos”.
O Manicômio: Não é a toa que a quarentena tenha sido em uma casa de loucos, visto toda a irracionalidade e toda a perda dos valores e leis sociais que se instauram nesse local, onde os cegos foram deixados. E não são raras as situações em que Saramago nos faz pensar, se o manicômio ao qual se refere é devido ao aposento em si, ou a todo o caos que o lugar virou.
*Essa é minha favorita; a crítica as lindas palavras vazias: “E quando é que é necessário matar, perguntou-se a si mesma(...) e a si mesma respondeu, Quando já está morto o que ainda é vivo. Abanou a cabeça e pensou, E isto que quer dizer, palavras, palavras nada mais”.
*Mas se o claustro do manicômio foi ruim, a liberdade não lhes deu maior tranqüilidade.
“é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é por definição um manicômio, e aventurar-se, sem mão de guia na trela de cão no labirinto dementado da cidade”. Não se pode negar a semelhança com diversas situações de opressão da sociedade, quando os ditadores caem, quando conseguimos a liberdade que tanto desejamos, não raro nos amedrontamos com a responsabilidade que adquirimos. Não raro temos medo do que está por vir, não raro ficamos sem saber para onde ir.
“tal como as paredes tinham sido antes prisão e segurança”.
“é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é por definição um manicômio, e aventurar-se, sem mão de guia na trela de cão no labirinto dementado da cidade”. Não se pode negar a semelhança com diversas situações de opressão da sociedade, quando os ditadores caem, quando conseguimos a liberdade que tanto desejamos, não raro nos amedrontamos com a responsabilidade que adquirimos. Não raro temos medo do que está por vir, não raro ficamos sem saber para onde ir.
“tal como as paredes tinham sido antes prisão e segurança”.
O Final: Esse não fez o muito sentido pra mim. E é justamente sobre o que mais desejo discutir. O fato de um belo dia os cegos simplesmente terem voltado a enxergar, foi algo que quebrou, em parte, meu raciocínio. E mais que isso, na mesma ordem em que começaram a cegar; primeiro o Primeiro Cego, depois o Médico, em seguida a Rapariga dos óculos, e assim por diante.
Confesso que em minha opinião nem todos voltariam a enxergar. Mesmo porque pelas próprias palavras do Ensaio: “É uma grande verdade aquela que diz que o pior cego foi aquele que não quis ver, Mas eu quero ver, disse a rapariga dos óculos escuros, Não será por isso quer verás, a única diferença era que deixarias de ser a pior cega(...), disse o médico".
Embora esse final ainda seja uma interrogação para mim, em nada isso alterou o tanto que passei a admirar Saramago. O livro foi maravilhoso, e por sua crítica ao homem e a toda a nossa sociedade merece todo o destaque que tem recebido. Eu ainda não vi o filme, mas pelo que sei não desvalorizou em nada a produção do autor. É provável que ele resolva meu dilema com esse final, não acredito, que em uma obra que foi tão trabalhada nos mínimos detalhes Saramago tenha simplesmente apelado ao “happy end” para terminar sua obra.
"Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem”.
Se vocês leram, viram o filme, por favor comentem, digam como viram a história, o que entenderam, o que ela lhes ensinou.
.alice.




7 comentários:
oxe, coincidência da porra
to lendo ele também
to no finalzinho já.
vou nem ler teu post então
fico devendo um comentário depois aqui :D
Eu vi o filme...e digo: é MUITO BOM...só q o final tb me imtrigou amiga...então pensei em ler o livro...mas já que vc leu e TB ficou intrigada...acho melhor eu assistir o filme de novo... =S na verdade todos q eu soube que assistiram ao filme ficaram intrigados com o final.
indico o filme, um dos melhores q já assisti nos últimos anos!!!
Key[com preguiça de mudar o login de tia bibi]
Como eu não li ainda parei na metade do post hehehehe
Todo mundo fala maravilhas sobre esse livro, ia até dar ele de presente para a minha namorada de aniversário (que bom que não dei, ela já havia lido). Mas pretendo lê-lo agora nas férias!
Um livro muito sobre crítica a sociedade, porém desenvolvida em cima do humor inglês é o Guia do Mochileiro das Galáxias!
Aliás, recebeu o e-mail da crônica do Alexandre Garcia???
(tô meio ausente do blog porque final de período é um aperto só na faculdade)
gostei mto do site.
que tar vcs darem uma olhada no meu tmb?
aq tah o link: http://judemoskovitz.blogspot.com/
Estou com o filme em casa para ver, acho que é algo forte...depois lhe conto as minhas impressões :)
Obrigada pelo comentário no meu blog! Fico feliz que tenha gostado e prometo mais mudanças adiante!
mil beijos,
até logo,
Kira
Eu vi o filme, e é demais...
apesar de eu ter pego uma versão que não tinha entendimento do que os japas estavam falando, mas tudo bem, a história se baseia em mostrar os limites da bárbarie humana, até onde chegamos pra aproveitar as coisas, o que vamos fazer pra tirar proveito dos outros e sobreviver. Ahh, bom texto.
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