terça-feira, 13 de outubro de 2009

Drummond


Cidade Prevista

Guardei-me para a epopéia
que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto-Araguaia,
vasgos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai o meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que eu desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens, minha inquietação,
fazei o canto ardoso,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro de mil anos,
talvez mais... não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas, nem quarteis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver
mas nesse jeito há variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casas sem armadilha
uma país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
e nem vosso ainda, poeta.
Mas ele será um dia
o país de todo homem.

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